Vida de Ozanam (X)

Francisco Javier Fernández ChentoFrederico Ozanam0 Comments

O nascimento da filha torna a vida de Ozanam ainda mais feliz

Adquirida a estabilidade profissional, assegurada uma situação econômica folgada, Ozanam consolidou a família em seu redor. Os dois irmãos passaram a residir com ele e até sua velha ama, Guigui, veio para sua companhia. Ele dizia ter transportado para Paris as paredes paternas com os móveis e tudo. Por fim também vieram sogro e cunhado. Ozanam, entretanto, ainda esperava alguém. Em agosto de 1845 sentia uma das maiores alegrias de sua vida: era Pai.

A disposição com que Ozanam recebeu a filha traduz bem seu procedimento de pai cristão: “Eu vi esta criaturinha, mas criatura imortal, posta por Deus em minhas mãos. Que trazia doçuras mas também obrigações. Distinguia nessa doce figura, plena de inocência, o selo sagrado do Criador. E compenetrava-me de que teria de prestar contas dessa alma imperecível, posta por Deus em minha vida, como um meio amável para me colocar no caminho do Céu”.

Pai e mãe sorriam com os primeiros sorrisos da criança e com impaciência aguardavam seu batismo. Recebeu o nome de Maria, em lembrança da avó e “gratidão à celeste patrona” a quem atribuía o nascimento. O padrinho foi Lallier. Ozanam via na filha um presente do Céu para fazer os pais melhores. Com o tempo dizia nada haver de mais doce do que, chegando em casa encontrar a amada esposa com a filhinha nos braços.

Foram dos mais felizes os anos de 1844 a 1846, decorridos na paz da família e nas ocupações dos estudos. No lar, Ozanam procedia como esposo amante e pai carinhoso. Na sobriedade de sua mesa não faltava aos domingos um prato saboroso. Todos os meses, na data do casamento, oferecia um presente à esposa. E Amélia executava ao piano os grandes mestres que ele muito apreciava. Em 1846 foi nomeado Cavaleiro da Legião de Honra.

Ozanam recusa o cargo de vice-presidente do Conselho Geral

Nem o lar nem as aulas afastavam-no da Sociedade de São Vicente de Paulo. Bailly deixara a Presidência para evitar perpetuidade. Após oito dias de orações ao Espírito Santo, o Conselho Geral deveria escolher o sucessor.

Elegeram Ozanam, então Vice-Presidente. Ele recusou, indicando Gossin, Conselheiro do Tribunal Real e Presidente da Conferência de S. Sulpício, que lhe pediu continuasse na Vice-Presidência. Concordou. Preferiu o trabalho obscuro, num devotamento contínuo aos interesses da sua “querida Sociedade”.

Ozanam fica enfermo e sofre por não poder visitar os pobres

A resistência física de Ozanam chegara ao máximo. Suas forças não suportaram o excesso de trabalho. Em agosto de 1846 caiu gravemente doente. Uma febre perniciosa o prostrou com perigo de vida. E, como ele mesmo afirmaria depois, não fossem os cuidados do Dr. Gourand e a ternura inteligente e corajosa de Amélia, poderia ter morrido. Após um mês de convalescença não conseguia nem levantar-se. A fraqueza era total. Trabalhar era mesmo impossível.

Apesar de todos os esforços médicos a doença persistia indomável. Tentaram passeios no campo, em vão. Sofria mais por não poder visitar seus pobres, e, para consolar-se, mandava distribuir pão aos que lhe batiam à porta. Também não podia prosseguir nas aulas. Os médicos determinaram um ano de repouso absoluto. O Ministro da Instrução, seu admirador, incumbiu-o de estudos e pesquisas históricas na Itália. Desejava, porém, é que ele se tratasse. Ozanam aceitaria isso?

A recuperação de Ozanam e seu encontro com o papa Pio IX

Felizmente a mudança de ares foi o melhor remédio e Ozanam pôde, sem constrangimento, desempenhar a comissão estipulada pelo Ministro. Sentia-se renascer gozando a viagem e freqüentando os museus e arquivos históricos tendo ainda a alegrar-lhe a existência a companhia da esposa extremecida e da filhinha querida. Ele iria empolgar-se com a agitação que invadira a Itália e o arrastaria para a luta noutros importantes setores dos sofrimentos humanos.

Chegando a Roma, Ozanam procurou em primeiro lugar ver o Papa Pio IX, eleito em junho de 1846. E ficou deslumbrado com as manifestações que lhe prestava o povo, que, apinhado aos milhares, o aclamava e dele recebia em pessoa a comunhão. Com lágrimas nos olhos, contemplava aquela figura “tão doce, tão santa”, exprimindo tanta caridade. E dizia para si que “era conquistando corações que o Papa conquistaria todos para Igreja”.

O Santo Padre recebeu Ozanam em audiência particular, que ele assim descreve: “Sua Santidade fez minha mulher sentar-se e abençoou minha filhinha de dezoito meses que, ajoelhada, olhava para ele. O Santo Padre falou da França, da juventude, das escolas, com muita emoção”. “Disse que conhecia a Sociedade de São Vicente de Paulo e as boas obras que sua juventude praticava com as visitas aos pobres e doentes, concluindo: Nossa esperança está nessa mocidade”.

Em agosto de 1847, Ozanam regressou recuperado, mas empolgado pelos novos rumos que Pio IX dera ao seu governo espiritual e ao seu reinado temporal. O Papa provocara revolução política nos Estados Pontifícios. Concedera anistia, determinara a revisão das leis vigentes, criara o Conselho de Estado e estabelecera uma representação comunal. Ozanam presenciara a “marcha triunfal” da multidão, dando vivas a Pio IX. Desde então quis defender também as necessidades políticas e sociais do povo.

Ozanam volta às aulas na Sorbona

Em dezembro, após um ano de ausência voltou Ozanam às aulas, na Sorbona. Deveria apreciar o “Purgatório”, de Dante, poeta do Cristianismo e da liberdade na Itália. O assunto prestava-se a aplicar, na exposição, o que ele apreciara na Cidade Eterna, nas manifestações populares a Pio IX. E ele dizia ter visto o começo de uma Nova Era, “a sociedade abraçando a liberdade, só possível abençoada pelo Cristianismo”. Ozanam firmava suas convicções sobre Doutrina Social.

Ele estava dominado pela necessidade da mudança do sistema político reinante na Europa, e por isso louvava Pio IX, por “se ter passado aos bárbaros” repetindo o gesto dos grandes Papas da Idade Média, apoiando os chamados “bárbaros” contra os prepotentes senhores feudais. Assim a Igreja salvou toda a Europa. Agora, as massas populares – os bárbaros de hoje – querem participar do Governo. Foi o que fez Pio IX, abrindo ao povo o lugar no poder.

Certos meios católicos não aprovaram as atitudes de Ozanam “exagerando os erros dos conservadores e atenuando os dos revolucionários”. Nesse ínterim, rebentou a revolução republicana na França, com seu cortejo de desordens e destruição. Embora declarando-se contrário à violência e ao saque, Ozanam via no movimento um passo para a Democracia, com muita possibilidade para o reconhecimento dos direitos da Igreja, desde que não se condenasse a vontade do povo, desejoso de liberdade.

 

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