Vida de Ozanam (VIII)

Francisco Javier Fernández ChentoFrederico Ozanam0 Comments

De volta à Paris, de volta ao combate à irreligiosidade

Paris tinha, agora, para Ozanam “gosto de exílio” .Além da ausência da noiva, encarava a perspectiva da estréia como Professor da Sorbona, onde estivera como aluno apenas há seis anos atrás. Hospedara-se em casa de Bailly, onde era tratado como filho. Enquanto não iniciava o Curso passava o tempo visitando amigos, escrevendo para importantes jornais e preparando a primeira aula com afinco. Dedicava-se também à Sociedade de São Vicente de Paulo.

Bailly queria aproveitá-lo para desenvolver maiores esforços na direção da obra, especialmente no funcionamento do Conselho Geral, onde Baudon, com seus 21 anos, substituía Lallier. Oitenta conferências floresciam em 48 cidades de 38 Dioceses, com as bênçãos da Santa Sé e o paternal apoio dos Bispos. Estabeleceram-se delimitações entre o Conselho Geral e os Particulares. E Ozanam, ante a desagregação de tantas coisas, destaca essas obras de Caridade; sobretudo o respeito à Religião.

Não é que tivessem arrefecido as investidas contra a Igreja. O sansimonismo voltara a ser ensinado no Colégio de França, professores anticatólicos recebiam medalhas e eram autorizados cursos populares para reanimar ódios desaparecidos. Ozanam, porém. retornara à luta, inquieto mas não desencorajado, e a Sorbona passou a ter um Curso de Catolicismo dentro de um Programa de História, convertendo mais descrentes do que numerosos sermões, como disse um dos ouvintes em carta ao jovem mestre.

A estréia como professor

 

No dia 1º de janeiro de 1841 ocupou a cátedra de Literatura Estrangeira, na Sorbona, como suplente, um jovem professor de 28 anos, pálido e vacilante, defronte de uma platéia de estudantes, professores e amigos. Era a estréia de Ozanam. Começou claudicante, nervoso, temeroso. Mas inflamou-se, entusiasmou-se e, entre palmas, terminou abraçado pelos presentes, que o felicitavam pela aula magnífica. A noiva, de longe, participava do triunfo, por ela atribuído a muita oração.

Ozanam temia que o grande auditório da estréia ficasse reduzido no correr das aulas. Mas, durante todo o Curso, a assistência permaneceu fiel, superlotando o anfiteatro. Era fato realmente novo, que um rapaz de 28 anos ali estreasse como mestre e como mestre fosse ouvido. Os católicos vibravam. Os descrentes se sentiam dominados por aquela eloqüência. O Ministro o felicitava e grandes jornais mandavam estenografar as lições. Escrevendo à noiva, atribuía tanta glória a orações dela.

O casamento de Ozanam e Amélia

Ozanam e Amélia uniram-se pelo matrimônio no dia 23 de julho de 1841, com o advento das férias na Sorbona. O noivo completara 28 anos e a noiva 21. O celebrante foi o irmão de Ozanam. Este, em carta a Lallier, narrou a cerimônia e seus sentimentos: “Eu sentia descer sobre mim as palavras consagradas”. “Ao meu lado, uma jovem de branco, velada e piedosa como um anjo”. Não se podia ser mais amoroso.

Após o casamento, a que assistiram numerosos vicentinos, teve início a lua de mel, através da. Itália. Ozanam declarava-se grandemente feliz, e dizia compreender o céu, acentuando: “Estou completamente iluminado de felicidade interior”. Em Roma foi o casal recebido pelo Papa Gregório XVI, que os fez sentar junto a ele, dizendo: “Vocês são meus filhos, deixemos a etiqueta de lado e vamos conversar”. Em dezembro o jovem par chegou a Paris, onde se instalou.

De volta da lua de mel Ozanam encanta mestres e alunos

Retomando Ozanam, em janeiro de 1842, suas aulas na Sorbona, nas quais iria desenvolver quase toda a história da literatura, disso aproveitava-se para um reencontro do espírito filosófico com o espírito católico. Ele fazia de suas aulas uma “missão sagrada” e não dava início a elas sem ajoelhar-se e recorrer ao Espírito Santo. Os alunos ficavam vibrando com suas lições e o acompanhavam após as aulas num verdadeiro cortejo de aplausos.

Ozanam impunha-se uma aura de grandeza intelectual e moral. Freqüentavam suas aulas muitos professores, jornalistas e homens de letras. Diziam que “tinha o fogo sagrado”. Sua convicção interior “convence e comove” .O célebre Renan afirmava: “Sempre saí de suas aulas mais forte e mais decidido a melhorar”. E repetia mais tarde: “Como nós o amávamos!”. Lamartine afirmava “haver em torno de Ozanam uma atmosfera de ternura pelos homens”. “Era um apóstolo da Verdade”.

Ao preferir ser professor substituto em Paris, desprezando segura situação confortável em Lião, Ozanam e esposa mantinham vida modesta. O diretor do célebre Colégio Stanislaw, Padre Graty, convidou-o para lecionar ali com boa remuneração. Sua passagem naquele colégio foi memorável. Dezoito meses durou seu curso, mas deixou tal impressão nos alunos que eles jamais esqueceram. Nunca um professor, na opinião deles, obteve tanta atenção, que significava caloroso aplauso. Ele espalhava simpatia e recebia simpatia.

Com sua eloqüencia Ozanam consegue várias conversões

Faltava a Ozanam boa aparência pessoal. Um de seus alunos, Carô, mais tarde professor na Sorbona e membro da Academia Francesa, assim traçou seu retrato: “Ozanam não tinha a seu favor nem a beleza nem a elegância nem a graça. Baixote e desengonçado, apresentava fisionomia estranha, com sua miopia e cabelos despenteados. Mas ajuntava à sua expressão de bondade um sorriso espiritual. Era como se um raio da alma passasse por essa fisionomia”.

Causava admiração o alto critério conquistado por aquele jovem de 28 anos, muito religioso. Lamartine destacava suas “afirmações inquebrantáveis”. O fato é que ele dominava qualquer auditório. Prova desse domínio ocorreu numa aula de Lenormant, antigo descrente agora bom católico, chamado o “Convertido da Sorbona”: Despeitados, antigos colegas de ateísmo prepararam com alguns alunos uma vaia, que começou a ser ensaiada. Ozanam, entrando na classe, conseguiu, só com sua presença, silenciar a turma.

Os homens de estudo que passaram a praticar a religião, formaram o “Circuto Católico”, onde realizavam conferências sobre assuntos variados. Ozanam, convidado, aceitou presidir a Conferência de Literatura. Com seu ardor de sempre convidava os ouvintes a trabalhar pela ciência, “no fundo da qua1 se encontrava Deus. Deus quer que a procuremos para lhe provar”, os o nosso.amor por ela. O caminho é difícil e longo. Alcançado o fim, a glória será da Providência”.

 

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