Vida de Ozanam (II)

Francisco Javier Fernández ChentoFrederico Ozanam0 Comments

Mudança para Paris

Para tanta juventude, era sublime. Concluído seu curso colegial em Lião, resolveu seu pai enviá-lo, afinal, a Paris, para o Curso de Direito, visto não haver na sua cidade Faculdade para essa formatura. A decisão não agradou a Ozanam, visto como não pretendia as letras jurídicas e receava as tentações da “nova Babilônia” em que se transformara a capital francesa, para onde acorriam reformadores e revolucionários, juntamente com cientistas e gozadores da vida. Confiava em Deus e nos ensinamentos maternos.

Para aquele jovem de 18 anos, educado em família cristã, Paris se apresentava como “vasto cadáver ao qual se teria de amarrar, tão moço e tão cheio de vida”. E, por isso, dizia, “Paris me deixa gelado, Paris me mata” , ao sentir-se “no meio de uma multidão inepta e sensual”. Honesto e inocente, receava a corrupção e a irreligião dominantes naquele “mundo pérfido”, que chamavam Cidade Luz. Essas as primeiras impressões de Ozanam, vendo Paris.

Por indicação de velha amiga de sua mãe, hospedou-se numa pensão ordinária, cujos hóspedes, tanto homens como mulheres sem religião e sem educação, não guardavam conveniências e, sabendo-o católico, dirigiam-lhe gracejos irreverentes, troçando por conservar ele o costume de jejuar. Procurava consolar-se, com lembrança de sua mãe e muita oração.

Felizmente encontrou no Padre Marduel, constante amparo, conselheiro íntimo, servindo- lhe “de pai e mãe”; sem ele “teria morrido de melancolia”.

A amizade com o destacado cientista Ampère

Visitando Lião, Ampère, sábio católico, encontrou Ozanam, a quem externou admiração pelo seu trabalho contra Saint-Simon, exigindo que, indo a Paris, o fosse ver . Lembrando-se desse convite, foi ele ter com Ampère, que o recebeu com efusão. Na conversa, Ozanam referiu-se ao desconforto de sua pensão, principalmente à irreligiosidade reinante. Para seu espanto, o sábio, mostrando o quarto do filho em estudos na Alemanha, ofereceu-lhe hospedagem até que este regressasse.

André-Maria Ampère andava pelos 56 anos e já ocupava lugar destacado no mundo científico. Membro do Instituto, professor de matemática da Escola politécnica e. de Física no Colégio de França, admirado na Inglaterra, Alemanha, Suécia, Bélgica.

Era o maior nome científico de seu país e do século. Apesar de grande fama era um católico decidido e humilde, ajoelhando-se, rezando contrito na igreja, diante do Santíssimo Sacramento, como o encontrou certa vez Ozanam.

O jovem, cheio de saudades dos pais, encontrou na casa de Ampère agradável ambiente familiar. Tendo perdido a esposa, o grande sábio era atendido pela irmã, consolado pela filha Albina, orgulhando-se pelos triunfos do filho João-Jacques, que alcançou renome nos meios literários.

A presença de Ozanam animava de certo modo a casa, e, escrevendo ao pai, narrava como era bem tratado, ficando à vontade na mesa e participando de palestras interessantes e instrutivas.

Graças à amizade de Ampère conseguiu Ozanam freqüentar o Instituto de França, consultando sua maravilhosa biblioteca e conhecendo pessoas célebres. Uma das suas primeiras aproximações foi Ballanche, bom católico, eminente literato, a quem se ligou como a um bom mestre, embora fazendo reservas às suas profecias apocalípticas. Apesar disso, as idéias de Belanche nele influíram, ao afirmar que, malgrado a incredulidade, a Europa guardaria a fé e o Cristianismo não afrouxaria nem desapareceria das nações.

O encontro com Chateaubriand

Ozanam aspirava ardentemente encontrar-se com Chateaubriand, autor do “Gênio do Cristianismo”. Trouxera carta do cônego de Lião, padre Bonnevie. Encontrou-o quando regressava da missa. Afavelmente acolhido, na conversa erguntou-lhe Chateaubriand se ia ao teatro. Ozanam respondeu que prometera à mãe jamais freqüentar teatro, tendo o escritor concluído: “Siga o conselho de sua mãe. Você nada ganhará indo ao teatro e, antes, teria muito a perder”. Isso lhe ficou na memória para sempre.

A convivência de Ozanam nesse mundo de cientistas, sábios e filósofos era uma preparação para os próximos vôos que a jovem águia teria que desferir. A Sorbona o esperava, pois era lá que iria desenrolar-se seu campo de batalha e alcançar suas vitórias. A Sorbona, fundada em 1250 pelo padre Roberto Sorbon, capelão do rei S. Luís, caíra nas mãos de adversários da Igreja. E a tarefa de enfrentá-los ia caber a Ozanam.

A procura de companheiros cristãos na faculdade

Ozanam viera a Paris, para fazer o Curso de Direito, por determinação paterna, Era preciso iniciar os estudos, o que fez em meados de 1831, a eles dedicando-se inteiramente, não só assistindo às aulas, mas redigindo as lições que acabava de ouvir. Além disso, comparecia às conferências e debates entre advogados, procurando conhecer de perto a prática da exata aplicação das leis, fosse como defensor, fosse como acusador, desenvolvendo com isso o seu talento oratório.

Mas Ozanam tinha outras intenções na freqüência assídua às aulas e cursos. Ele ansiava por conquistar companheiros para uma tarefa toda especial. Desejava cercar-se de colegas que sentissem e pensassem como ele no tocante aos ideais cristãos e verificar como era “difícil reunir defensores em torno de uma bandeira”. Ele sabia que existiam esses procurados companheiros e já encontrara mesmo jovens que consagravam, embora isoladamente, os mesmos propósitos por ele acalentados. Precisava reuní-los.

Aparentemente faltavam a Ozanam qualidades de liderança. Não podia contar com o prestígio da beleza nem com ar autoritário. Mas era a bondade em pessoa, numa simplicidade que atraía simpatias. O que lhe dava mais destaque era a sua vigorosa inteligência e a maneira de agradar quase espontânea. Humilde por natureza, não avançava em intimidades, mas sabia despertar amizades imperecíveis. Essas qualidades lhe valeram as primeiras aproximações com aqueles que iriam ser companheiros inseparáveis.

Como não podia deixar de acontecer, foram estudantes lioneses os primeiros a participarem da amizade de Ozanam, começando pelo primo Pessonneaux, vindo a seguir Janmot, seu companheiro de primeira comunhão, Velay, Jouteaux, Perriere e Chaurand, que iriam formar na primeira Conferência de São Vicente de Paulo em Paris e depois em Lião. Ozanam via neles aproximar-se a fonte para jorrar o amor, como da aproximação das nuvens nascem raios. Mas ainda não era tempo.

O início da amizade com Lallier

A hora das grandes batalhas ia-se aproximando. Um dia, no Colégio de França, o professor Letrone aproveitou uma aula de egiptologia para achincalhar a Bíblia. Ozanam reprovava as injúrias com significativos movimentos de cabeça, tendo notado que outro estudante fazia o mesmo.

Finda a aula, tentou encontrá-lo, sem resultado. Noutro dia, aquele estudante viu Ozanam num debate com outros colegas, dele aproximou-se. Cumprimentou-o, sendo correspondido, logo travando amizade: Era Lallier.

 

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